domingo, 27 de novembro de 2022

Bibliografia Anotada sobre Educação a Distância (Reino Unido)

 O presente trabalho de bibliografia anotada foi realizado no âmbito da unidade curricular Modelos de Educação a Distância e teve como mote o seguinte desafio:

Imagine que, como estudante do mPeL é convidado para colaborar na Web TV do Laboratório de Educação a Distância e eLearning fazendo a pesquisa e selecionando potenciais investigadores para sustentar entrevistas. Cada equipa de duas pessoas irá fazê-lo através da realização de uma Bibliografia Anotada.

A nossa equipa (Andreia Bento e Maria Vinagre) escolheu focar-se em pesquisadores do Reino Unido, tendo selecionado os seguintes artigos/estudos:

 

Baxter, J. A., & Haycock, J. (2014). Roles and student identities in online large course forums: Implications for practice. The International Review of Research in Open and Distributed Learning15(1).

DOI:  https://doi.org/10.19173/irrodl.v15i1.1593

O artigo relata um estudo de caso baseado na participação dos estudantes num fórum de discussão de um curso universitário, visando determinar em que medida esta contribui para a motivação, sentido de eficácia e sucesso, e para o reforço dos sentimentos de integração académica e social. Baseia-se em teorias que advogam a relevância das comunidades online e o reconhecimento do papel que os tutores desempenham no ensino a distância, e na tese defendida por alguns autores que afirma que o grau de envolvimento dos estudantes em fóruns online está diretamente relacionado com a sua progressão nos estudos. Questionou-se porque é que os estudantes utilizam fóruns online, para que fins, e que efeitos notam na promoção da sua confiança. A análise de resultados incidiu sobre a integração social e académica e também sobre a estrutura e gestão do fórum (facilidade de publicação e a interação tutor-aluno).

Constatando-se que a utilização de grandes fóruns de discussão no ensino online e à distância continua a crescer, que a popularização dos MOOC (massive open online courses) os torna meios preferenciais de formação ao longo da vida, e que o crescimento paralelo da utilização de meios de comunicação online para a realização de cursos em universidades "tradicionais" geram tanto oportunidades como desafios quer para os formadores como para os estudantes online, torna-se imperativo centrar a investigação em educação na compreensão das virtudes e desvantagens desta prática e seus contributos para a aprendizagem. Nesse sentido, este estudo apresenta-se bastante relevante ao concluir que, embora o enquadramento do fórum facilite de um certo grau de integração e identidade académicas, na medida em que os estudantes indicaram sentir-se confiantes para publicar nele, há provas de que também apresenta uma série de entraves que produzem efeitos nefastos na motivação dos estudantes e na sua identidade em linha, nomeadamente as dificuldades de se sentirem integrados socialmente e constrangimentos na adoção da cultura de comunicação através de fóruns e da interiorização das normas de funcionamento em comunidade online. Uma descoberta importante deste estudo, que não tinha sido antecipada pelas autoras, foi o facto de o apoio obtido da interação entre pares ter sido referido como uma mais-valia pela maioria dos estudantes, quer em termos da sua importância afetiva, como no que se refere ao suporte académico e cognitivo.

 

 

Tait, A. (2014). From Place to Virtual Space: Reconfiguring Student Support for Distance and E-Learning in the Digital Age. Open Praxis6(1), 5–16.

DOI: http://doi.org/10.5944/openpraxis.6.1.102

Este artigo incide sobre o impacto das tecnologias digitais no apoio aos estudantes a distância e no eLearning, e de que forma este pode ser reconfigurado na era digital. Faz a contextualização histórica sobre a forma como esta inclusão tem sido feita e destaca que, apesar das vivências se terem alterado, muitas das conceções acerca da educação usando suporte digital e online datadas dos anos 80 continuam a ser promovidas ou reproduzidas irrefletidamente. Analisa depois as vantagens da transição da educação presencial para os espaços virtuais de aprendizagem, no que concerne à diminuição de constrangimentos de espaço e tempo, e reflete acerca do que ela implica em termos de apoio ao estudante a distância. Por fim, aborda a questão do abandono escolar no ensino a distância e a forma como o repensar do apoio dado aos estudantes é fulcral para a melhoria da aprendizagem e redução do número de desistências.

A evolução das tecnologias digitais e o reconhecimento das suas potencialidades para a melhoria da educação torna cada vez mais pertinente o estudo das suas utilizações nos contextos digitais de aprendizagem a distância e de eLearning e suas implicações em termos de conceção da aprendizagem. Segundo este estudo as melhorias proporcionadas pela evolução tecnológica devem ser encaradas como oportunidades de melhoria da educação, ao mesmo tempo que exigem novas soluções que devem ser incorporadas no suporte aos estudantes, tendo obrigatoriamente que ser consideradas em termos do design pedagógico em contextos de aprendizagem online, incluindo o apoio aos estudantes de forma integrada com o ensino e avaliação, o que constitui um desafio significativo para as instituições educativas.

 

Clifton, G. (2017). An Evaluation of the Impact of “Learning Design” on the Distance Learning and Teaching Experience. The International Review of Research in Open and Distributed Learning, 18(5).

DOI: https://doi.org/10.19173/irrodl.v18i5.2960

O estudo decorre da introdução, na modalidade de ensino a distância, de um projeto-piloto de “Learning Design” (LD) com o objetivo de descrever as intenções pedagógicas de um curso/unidade curricular, fornecendo ao estudante uma visão ampla dos recursos, ferramentas e carga horária subjacentes ao seu funcionamento. Revela o seu sucesso ao nível da promoção do trabalho colaborativo na elaboração do projeto, mas evidencia a desconexão entre o que foi delineado e o que foi experimentado. O projeto-piloto decorreu na Open University (OU) com o intuito de promover a atividade do aluno num Ambiente Virtual de Aprendizagem, proporcionar mais momentos de aprendizagem ativa e desenvolver as competências digitais. Tem influenciado “the way that LD continues to be refined, developed, and implemented across the whole of the OU” e inscreve-se no paradigma da pesquisa sociocultural, que visa modelos de aprendizagens centrados na participação.

O projeto-piloto sobressai por ser uma ferramenta de trabalho promotora de um diálogo à distância, estruturado e facilitador de organização. Embora, com fragilidades à data da sua criação e implementação, constitui-se como um recurso de extrema importância, por um lado, ao nível do trabalho colaborativo, pelo cruzamento de preocupações ao nível da pedagogia, da aprendizagem e da inclusão de ferramentas digitais promotoras de uma participação ativa e, por outro lado, pela ligação professor-aluno no contexto de ensino a distância, uma vez que explicita a priori o trabalho que vai ser desenvolvido.

 

Taylor, J., 2013. Learning Journeys: the road from informal to formal learning. Journal of Interactive Media in Education, 2013 (2), p.Art. 8.

DOI: http://doi.org/10.5334/2013-08

O artigo relata o percurso da Open University (OU), no que concerne às abordagens pedagógica e tecnológica nos domínios da aprendizagem formal e informal. Explicita os conceitos de “Learning Design”, “Open Media” e “Ecological Approach”, referindo como se estruturam e em que medida contribuíram para a valorização do Ensino a Distância (ED). A autora considera que “OU has achieved worldwide success as a distance education provider because it has taken an ecological approach”, assente numa preocupação em adotar as melhores soluções tecnológicas na concretização de opções pedagógicas, sempre com o foco em metodologias ativas e, simultaneamente, numa cultura de partilhas promotora da formação de uma comunidade. O foco da OU reside na extensão da sua ação ao público em geral, transformando a aprendizagem informal em interesse na aprendizagem formal, ou seja, no investimento para aquisição de qualificações académicas ou vocacionais, “from watching television to registering for a degree course”.

Este artigo permite uma visão compreensiva acerca do percurso feito pela OU enquanto instituição de ensino a distância e das suas opções metodológicas bem como dos recursos tecnológicos e mediáticos inerentes ao ED que contribuem para o desenvolvimento da noção de Aprendizagem ao Longo da Vida. Para além da perspetiva histórica, o artigo dá a conhecer os princípios orientadores da ação desta universidade, inovadores relativamente ao modelo académico presencial, no sentido que há uma preocupação pedagógica em conectar e misturar opções tecnológicas que visem a partilha de ideias entre as pessoas visadas no processo, criando uma comunidade pautada pela confiança e pela partilha.

sábado, 19 de novembro de 2022

A cibercultura, segundo Pierre Lévy

 

Segundo Pierre Lévy, a cibercultura engloba todo um conjunto de novas práticas, hábitos, formas de comunicar e até mesmo de vocabulário, que surgem com a adoção de novas formas de nos relacionarmos com o mundo e uns com os outros, em virtude da integração das novas tecnologias e do crescimento do ciberespaço graças a um "movimento internacional de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem". 

O ciberespaço (rede) é definido como um novo meio de comunicação, englobando a infraestrutura material da comunicação digital (computadores conectados através da internet), as informações que nele circulam e as pessoas que nele participam, enquanto a cibercultura abrange o "conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço".


 

Para além das definições, Lévy defende que a cibercultura tem como horizonte uma universalidade completamente distinta de todas as outras formas e manifestações culturais. Ao contrário das culturas baseadas na oralidade (onde a produção, transmissão e receção de mensagens é feita num mesmo contexto) que vivem "uma totalidade sem universal" ou das sociedades baseadas na escrita (que se enclausura sobre si mesma, numa tentativa de fixação de sentidos) que fizeram surgir um "universal totalizante", a cibercultura devolve as mensagens ao seu contexto, como nas culturas baseadas na oralidade, procurando uma universalidade sem totalidade que se constrói e reconstrói na interação e negociação de significados construídos em rede (ciberespaço), sem imposição de sentidos únicos.

 

Na perspetiva do autor, a cibercultura rege-se por três princípios:

 

  • O princípio da interconexão, na medida em que obedece à lógica da interatividade da comunicação, da presença em rede, da interligação dos contactos a partir de outros contactos. Um exemplo bem representativo deste princípio são as redes sociais, como o Instagram ou o Facebook, que permitem colocar em contacto "amigos" de "amigos", multiplicando as conexões, e em que se fazem publicações visando obter "likes" ou comentários (de validação), favorecendo a comunicação entre os utilizadores.

 

  • O princípio da formação de comunidades, relacionado com a tendência para as pessoas se agruparem em "tribos" formando grupos que partilham dos mesmos interesses, refere-se à criação de comunidades virtuais que congregam utilizadores com base nas suas afinidades e visam a partilha e a cooperação. São exemplo destas comunidades virtuais os grupos de Facebook e de WhatsApp, por exemplo.

 

  • O princípio da inteligência coletiva, fim último da cibercultura e da sua perspetiva cultural. Baseia-se no pressuposto de que aprendemos e nos enriquecemos em rede, que onde quer que estejamos levamos a nossa bagagem de conhecimento, que ampliamos ao aceder a conteúdos variados disponíveis no ciberespaço e que de outra forma poderiam ser inalcançáveis. Temos como exemplos a disponibilidade no ciberespaço de recursos educativos abertos, dos vídeos temáticos em canais do YouTube, dos MOOC disponibilizados por várias entidades formadoras e instituições do ensino superior, e uma imensa variedade de conteúdos que antes estavam apenas ao alcance através de aulas, livros, museus, etc.

 

Com a abertura deste novo espaço de comunicação, o ciberespaço, prolifera a livre circulação de informações, muitas vezes contraditórias, e cuja veracidade nem sempre é fácil de comprovar, em quantidade e a uma velocidade que podem ser assoladoras. Recorde-se que Lévy, ao definir ciberespaço salienta que este designa "não só a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico das informações que nele navegam e o alimentam”. A metáfora do universo oceânico, que aponta já para uma imensidão de informação sobre a qual é necessário navegar é retomada quando alude ao excesso de informação como dilúvio informativo. Apesar das alusões bíblicas continuarem ao longo da obra, não creio que a intenção do autor seja transmitir uma ideia negativa, muito menos catastrofista das implicações da cibercultura. Pelo contrário, são várias as alusões à responsabilidade, quer individual quer coletiva, de fazer uma utilização adequada das tecnologias à nossa disposição, nomeadamente quando refere que "Os instrumentos que construímos dão-nos poder, mas, coletivamente responsáveis, a escolha está em nossas mãos" ou que "Técnicas criam novas condições, mas não determinam nem as trevas nem a iluminação para o ser humano".

 

De facto, a facilidade com que acedemos, manipulamos e transmitimos informações no ciberespaço devia obrigar-nos a pensar e reorganizar o modo como comunicamos e produzimos mensagens. São os fluxos descontrolados de informação e de comunicação que constituem o lado menos profícuo deste dilúvio informativo e que têm implicações na vida em rede.

 

É necessário reconhecer as implicações culturais do desenvolvimento das tecnologias digitais de informação e de comunicação e compreender as transformações que esse desenvolvimento implica na nossa relação com o saber, assim como nos campos da educação e da formação. Só munidos dessa consciência e dos conhecimentos pedagógicos (e técnicos) poderemos contribuir para uma utilização dessas tecnologias enquanto ferramentas de democratização do acesso à informação e de uma educação de qualidade para todos.

 

Se tivermos em mente a visão positiva e otimista de Lévy quando refere que "o horizonte de um ciberespaço que temos como universalista é o de interconectar todos os bípedes falantes e fazê-los participar da inteligência coletiva da espécie no seio de um meio ubiquitário", teremos uma declaração de "boas intenções" no que respeita ao ciberespaço. Depende de nós contribuir para o desenvolvimento de uma cibercultura em que se revelem as suas potencialidades mais positivas, desenvolvendo e utilizando as tecnologias numa perspetiva que tenha tanto de comunitária como de humanista.

 

Bibliografia:

Lévy, P. (1999) Cibercultura. São Paulo: Editora 34.