sábado, 21 de janeiro de 2023

Seleção e utilização de Recursos Educativos Abertos

 

Na sequência do post já publicado acerca de Repositórios de Recursos Educativos Abertos, cumpre agora refletir sobre a forma como selecionamos REA e os adaptamos às nossas práticas. Da minha experiência profissional, considero que o recurso a REA é ainda incipiente nas escolas portuguesas principalmente por desconhecimento acerca de onde os encontrar (fontes de REA fidedignas e de qualidade), acerca das licenças e direitos autorais, acerca da forma como se podem adaptar, partilhar e redistribuir estes materiais. É fundamental dotar os docentes de conhecimentos teóricos e práticos que lhes permitam compreender os benefícios e potencialidades dos REA e, a partir daí, partir para a seleção, adaptação e conceção de estratégias pedagógicas e didáticas significativas e enriquecidas por estes recursos.

Em primeiro lugar, importa esclarecer sobre o que são os Recursos Educativos Abertos e compreender as suas potencialidades do ponto de vista do professor. De acordo com Wiley (2014), um REA carateriza-se através de 5Rs: Retain – possibilidade de guardar uma cópia pessoal dos REA; Reuse – possibilidade de reutilizar o REA em diferentes contextos; Revise - possibilidade de adaptar o REA, modificando o seu conteúdo ou forma; Remix – possibilidade de combinar o REA original ou adaptado com outro, criando um novo recurso; Redistribute – possibilidade de partilhar o REA original ou modificado, bem como nonos recursos em que este seja incorporado. Cada uma das cinco propriedades referidas poderá estar mais ou menos presente em cada recurso, consoante o tipo de licenciamento que foi feito.

Na escolha que fiz para esta atividade procurei recursos cujas caraterísticas e licenciamento vão ao encontro dos 5Rs de modo a: poder guardar para mim uma cópia do recurso original, modificá-lo de modo a adequar aos recursos físicos e às caraterísticas dos alunos das turmas, reutilizá-lo em anos subsequentes com outras turmas, integrá-los com outros recursos que já tenho e partilhá-lo com os meus colegas de grupo disciplinar ou partilhá-lo novamente no mesmo repositório com as alterações introduzidas e um reflexão acerca da sua implementação. Para além das caraterísticas referidas, os recursos que apresento de seguida foram escolhidos tendo em conta outros critérios: adequação à faixa etária dos alunos, rigor científico, adequação ao currículo, adequação a alunos com necessidades educativas especiais (que estando integrados nas turmas, tenham a oportunidade de realizar as mesmas experiências de aprendizagem e participar em condições de equidade), não requererem a utilização de ferramentas e/ou plataformas adicionais para além das adotadas institucionalmente (evitando múltiplos registos dos alunos em plataformas externas e possíveis problemas de segurança digital que daí possam advir).

Primeiro recurso: 00Pi – O Agente Irracional

Endereço web: Casa dasCiências - 00Pi - O Agente Irracional (casadasciencias.org)

O recurso permite diversas abordagens em sala de aula, desde a leitura do texto (história) com os desafios, à sua visualização através da animação (o que a torna acessível a alunos com dificuldades educativos especiais). Inclui também recursos em Geogebra (software de Geometria Dinâmica de acesso livre), bem como sugestões de exploração em sala de aula para o professor adaptar à sua realidade, ou seja, o próprio recurso não só possibilita a adaptação e reutilização, também a incentiva.

Ao longo da história são apresentados diversos desafios, que permitem explorar vários temas matemáticos de 7.º e 8.º ano (7.º ano - Termo geral de uma sequência numérica e de uma sucessão; 8.º ano - Números e Operações: Números irracionais e dízimas infinitas não periódicas. Isometrias. Translação. Reflexão deslizante. Translação. Vetores.)

Uma vez que os desafios envolvem o uso de materiais manipuláveis e a utilização de recursos digitais, em atividades de extensão variada, optaria por não exibir o vídeo todo de uma vez. Provavelmente seria mais interessante explorar o recurso escrito, solicitando a leitura aos alunos (promovendo a leitura e a expressão oral). Os trabalhos seriam realizados em grupos e o vídeo segmentado de forma a acompanhar as aulas de discussão das estratégias utilizadas por cada grupo e apresentação dos produtos finais.

 

 

Segundo recurso: Simple Rocket Science and Statistics

Endereço web: Simple Rocket Science and Statistics | OER Commons

O recurso que escolhi não é acompanhado de uma sugestão de tarefa estruturada, permitindo diversas abordagens. Apresenta um vídeo muito breve que mostra um zepelin a ser impulsionado pelo ar ao longo de um fio de pesca. Articulando com os seus conhecimentos de Físico-Química, os alunos poderão conjeturar que quanto maior o propulsor, maior a ação e, portanto, maior a reação. De seguida, poderão reproduzir a experiência (com os materiais disponíveis em laboratório), experimentar diferentes quantidades de ar e medir a distância que o foguete percorre. Ao fim de um número adequado de experiências, poderão proceder à organização e tratamento dos dados estatísticos, utilizar ferramentas digitais para a criação de gráficos e outras formas de apresentar as suas conclusões acerca desta experiência, e comunicar os resultados.

Este seria um recurso que eu gostaria de voltar a partilhar no repositório, incluindo a proposta de trabalho elaborada e as estratégias didáticas e pedagógicas que ele proporcionou desenvolver.

 

Referências:

Wiley, D. A. (2014). The Access Compromise And The 5th R. (http://opencontent.org/blog/archives/3221)

domingo, 15 de janeiro de 2023

A REDE como interface educativo (VII)


Reflexões

Atualmente a internet é já utilizada para muitos fins na educação, tais como a publicação de informações das instituições e cursos, distribuição de materiais do professor para os alunos e forma de comunicação síncrona e assíncrona on-line entre professores, entre professores e alunos e entre os próprios alunos.

Tal como refere Grajek (2021), a evolução tecnológica e transformação digital das instituições educativas tem vindo a possibilitar o desenvolvimento de sistemas de serviços integrados para apoiar todo o ciclo de vida do aluno, desde a prospecção até a matrícula, todas as etapas de aprendizagem e, inclusivamente, acompanhamento na profissão com a criação de oportunidades de formação ao longo da vida. Os serviços digitais vão sendo redesenhados tendo em mente a experiência do aluno e as ferramentas de gestão vão-se adaptado de modo a permitir uma experiência coerente que integre, eduque e ligue os estudantes.

No entanto, utilizar a web para melhorar a qualidade da educação implica muito mais, urge perceber de que forma esta vivência da sociedade em rede muda a nossa forma de estar, de aprender e de ser, para compreender como é que pode contribuir para criamos ecossistemas educacionais dinâmicos e capazes de evoluir e se adaptar às exigências do mundo atual e do futuro.

Face à revolução tecnológica e ao seu impacto na sociedade atual, os vídeos de Michael Wesch mostram que existe necessidade de alteração dos paradigmas educacionais [no ensino superior], de forma a acompanhar a forma como a tecnologia está a mudar-nos. As atividades escolares estruturadas de forma tradicional não podem competir com a riqueza das aprendizagens informais que estão acessíveis na web sob a forma de recursos multimédia, palestras por especialistas internacionais de qualquer parte do mundo tornadas acessíveis através do Youtube (por exemplo), espaços de discussão e fóruns temáticos colaborativos, e uma diverso manancial de interfaces flexíveis especializadas e dinâmicos que permitem a conexão entre pessoas de todo o mundo que partilham o interesse (e conhecimento) sobre um qualquer assunto.

Dos vídeos analisados podem ainda retirar-se ilações acerca do rumo para onde a sociedade em rede caminha, transformando a educação e os educandos, aprimorando-se novos paradigmas e novos modos de se pensar a função social da educação, tão bem explicada na literatura inicialmente referida neste conjunto de posts.

A utilização das redes sociais por todos, mas sobretudo pelos jovens que já nasceram na era das tecnologias e têm uma forte presença no mundo digital, onde revelam os seus desejos e expetativas de forma transparente e automática, permite compreender a forma como os estudantes contemporâneos concebem a aprendizagem ao logo da via e perceber as preocupações que demonstram em relação ao seu futuro. São estes os jovens que desafiam o sistema educacional, revelando uma intervenção mais ativa na deteção e introdução de alterações necessárias, o que poderá revelar-se como uma mais-valia para a implementação da mudança do paradigma educacional.

Partindo do pressuposto de que educação não é só instrução, mas é também transmissão de valores, a participação por via das redes pode ser um forte instrumento disseminador de valores.

No entanto, a grande contribuição que as tecnologias podem dar no acesso à educação na globalização da mesma, não será no âmbito dos utilizadores, mas sim nos construtores de informação e partilha, que devem munir-se de ferramentas não só digitais, mas principalmente conceptuais para reformar a educação, repensando-a a partir de dentro como uma forma de desenvolvimento de novas capacidades, atitudes e competências capazes de nos tornar mais aptos a interagir em sociedade e evoluir com ela.

Da mesma forma que as redes sociais promovem as relações de igualdade entre os seus utilizadores, criando comunidades de partilha e entreajuda, em que todos ensinam e todos aprendem, também as instituições educativas deveriam basear as suas práticas em relações de parceria, mobilização e solidariedade, criando oportunidades de ação coletiva do exercício da cidadania e promovendo a aprendizagem a partir de tópicos de interesse atual agregando estudantes em torno de um objetivo comum, cumprindo assim o seu papel social de preparação para o futuro, de valorização do contexto e de atenuação das desigualdades. O professor deixa aqui de ter o papel principal no processo de ensino-aprendizagem e deixa de ser o detentor do conhecimento, passando a atuar como facilitador do acesso ao conhecimento, orientador, e questionador, promovendo a autocrítica e a autoconsciência. Os alunos passam a ser autores da construção do seu conhecimento, num processo partilhado com os pares e mediado pelo professor, aprendendo a expressar ideias, participar em discussões e ser, eles próprios, produtores de conhecimento e veículos de ensino. Vemos aqui um retomar das ideias de Teixeira, Bates e Mota (2019), que defendem que a sociedade em rede impõe uma reorganização das instituições educativas que implica, entre muitos outros aspetos diferenciadore sdo ensino tradicional, uma maior participação dos alunos no co-design e co-avaliação da sua aprendizagem.

Apesar de todas as suas potencialidades, há algo que a educação não pode descurar: o acesso generalizado a uma quantidade massiva de informação (nem sempre credível ou segura) leva-nos a questionar o papel da educação no desenvolvimento do espírito crítico e da capacidade das pessoas procurarem, encontrarem e discernirem informações relevantes. Mais do que acumular informações, importa aprender a aprender, aprender a pesquisar, aprender a raciocinar, tudo competências de nível superior, o que torna o papel do professor cada vez mais exigente e o da educação cada vez mais fundamental numa sociedade que se quer informada, mas, sobretudo, reflexiva.

Para além da educação formal, destinada sobretudo aos mais jovens, importa também repensar neste novo contexto de sociedade em rede a questão da autoformação principalmente no contexto de aprendizagem ao longo da vida. As várias mudanças sociais que atravessamos, como sejam o envelhecimento das populações, a idade tardia de aposentação em várias profissões, a evolução tecnológica que leva à introdução de necessidades de formação e atualização constantes, têm contribuído para o incremento da necessidade de aprendizagem ao longo da vida por um número cada vez maior de pessoas, seja através de processos educativos formais (obtenção de estudos de nível superior) como informais (cursos não graduados, autoformação, etc.).

Segundo Grajek (2021) é por este motivo que os líderes institucionais têm vindo a promover e incentivar o desenvolvimento e implementação de novas formas de proporcionar uma aprendizagem ao longo da vida. Este incentivo tem-se refletido num aumento da oferta de cursos (graduados ou não) por parte das instituições de ensino, em muitos casos no âmbito de parcerias com empresas e organizações, fortalecendo a relevância da aprendizagem ao longo da vida e conectando os conhecimentos adquiridos à melhoria do desempenho profissional por via da qualificação dos trabalhadores.

Em paralelo ao aumento da oferta institucional, têm vindo a surgir uma multiplicidade de iniciativas que contribuem para um aumento considerável do número de pessoas a recorrer aos recursos disponíveis na web para a sua autoformação. De facto, a disponibilidade de cursos, trabalhos académicos, palestras e inúmeros outros recursos, de forma gratuita através da web, constituem um estímulo à aprendizagem e ao enriquecimento intelectual por parte dos indivíduos. E o facto de ser possível encontrar também na rede a interação que permite construir uma relação dialógica de troca de ideias, experiências e conceções acerca dos mais variados assuntos, contribui para que esta seja percecionada como um interface educativo acessível e gratuito.

Há que ter a noção, porém, de que nem todas pessoas são capazes de autoformação, e que esta requer muitas outras competências (responsabilidade, autoconsciência, espírito crítico, motivação, proatividade, autonomia, etc.) que terão de ter sido aprendidas numa fase anterior, por via da educação. O que nos leva à conclusão de que, por muito promissora e facilitadora que seja a Rede, ela não poderá substituir-se por completo ao papel do professor. No entanto, a sua evolução tem-se constituído como motor de uma mudança que tem vindo a devolver à educação a sua missão humanizadora e igualitária.

 

 

 

A REDE como interface educativo (VI)

 

Análise do Vídeo The machine is Us/ing Us


The Machine is Us/ing Us (Final Version)
Disponível em:
https://youtu.be/NLlGopyXT_g

Começando pelo título, que faz o trocadilho entre The machine is using Us e The machine is Us, estamos perante um vídeo que instiga à reflexão sobre as vantagens, flexibilidade, adaptabilidade que a web 2.0 comporta e a forma como contribui para conectar as pessoas e está a mudar a forma como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo.

O vídeo começa com texto manuscrito e evolui para a escrita digital, mostrando a riqueza que hiperligações, blogs, wikis, tags, etc. representam em termos de comunicação digital, e o quanto ela flexibiliza e conecta as pessoas. Evidencia a necessidade de pensar a separação entre forma e conteúdo, de questionar acerca do que é a web e do que falamos quando falamos em "rede". A web 2.0 é mais do que apenas informação, é conectar pessoas, é partilha, é troca, é colaboração, sendo também descrita como web social.

Atualmente qualquer pessoa com o mínimo de conhecimentos e habilidades informáticas (na ótica do utilizador) pode utilizar a internet, não sendo necessário ser especialista ou programador para o fazer, pelo que qualquer um pode interagir socialmente com os outros através da e na Rede. Existem facilitadores que permitem interagir com outros, criar conteúdo, partilhar e pesquisar informação. É todo um novo mundo global, de acesso universal, muito popular e deslumbrante que está disponível de forma massiva.

O interessante é refletir sobre este novo mundo que foi criado por pessoas, evolui diariamente pela atividade e interação constante das pessoas, e vive da participação das pessoas e dos conteúdos com que o alimentam. Por exemplo os conteúdos do YouTube são produzidos e partilhados pelas pessoas que com a plataforma interagem.

A mensagem deste vídeo, de que a máquina somos nós, pode ser resumido à frase de Savazoni:

“A web não é mais apenas para ligar informações, a web é para ligar pessoas, a web 2.0 é para ligar pessoas, compartilhando, trocando e colaborando”.
(Rodrigo Savazoni em 
https://www.redebrasilatual.com.br/revistas/a-maquina-somos-nos/).

Wesch retrata aqui a evolução da web 2.0 e as conexões e potencialidades decorrentes desta evolução. Atualmente já se fala em web 4.0 e este é um incentivo a refletirmos sobre a forma como a transformação está a acontecer, a uma velocidade difícil de acompanhar, e tem impacto direto sobre a forma como entendemos a comunicação, a interação e todos os outros elementos do mundo digital, tornando evidente a realidade da correlação Humano-Máquina. A evolução tecnológica a este nível é imprevisível, está em constante mutação, estão a surgir permanentemente novas ferramentas que nos permitem conectar de formas diferentes. E isso faz com que tenhamos de repensar algumas coisas: factos, direitos de autor, identidade, retóricas, privacidade, e outros conceitos. Em última análise, faz com que tenhamos de nos repensar a nós próprios e à nossa presença na rede.

 



 

A REDE como interface educativo (V)

 

Análise do Vídeo A vision of Students today


 
A Vision of Students Today
Disponível em:
https://youtu.be/dGCJ46vyR9o&t=1s

Procurando ilustrar a visão dos estudantes [sobre a educação] atualmente, o vídeo faz uma apresentação dos resultados obtidos à questão “como é ser estudante hoje?”. Pretende retratar um momento reflexivo de tomada de consciência por parte de mais de 200 alunos que se auto entrevistaram sobre esta questão.

Apresentando várias frases relacionadas com diferentes contextos que vão desde as condições físicas das instituições educativas, a falta de ligação com os professores, o desinteresse pelos estudos, as desigualdades financeiras, entre outros, convergem para problemas que, não tendo sido criados por eles, são problemas deles agora.

Os estudantes alertam para a necessidade de refletir acerca da pertinência de aulas, matérias, trabalhos, horas de trabalho e da tecnologia em si, mas também assumem que, pese embora as dívidas que irão contrair para se formarem, pertencem a uma faixa de sortudos a quem é permitido estudar e aceder à educação.

O vídeo aborda a semelhança entre os padrões atuais de organização e de estrutura do espaço escolar atuais e já existentes desde há mais de um século e retrata também a visão dos alunos acerca do sistema e do ambiente escolar evidenciando a discrepância entre o modelo de ensino-aprendizagem (fortemente expositivo e centrado na comunicação unilateral) e a realidade da sociedade em que vivem, altamente influenciada pela tecnologia e pela interatividade, demonstrando o impacto da tecnologia nas suas vidas tanto pessoais como escolares e a importância da interação e do trabalho colaborativo.

Os comentários que os estudantes fazem sobre tecnologia não são todos bons. Afirmações como "passo as aulas no Facebook" ou "uso o PC nas aulas mas não é para trabalhar" mostram o quanto há ainda de trabalho a fazer no que toca a tornar os nativos digitais mais aptos a usar o digital a seu favor, para aprender e trabalhar de forma mais eficiente, e não apenas para fins de lazer, e ilustram o lado menos bom da digitalização da educação (a par com a imersão tecnológica) ao mesmo tempo que revelam os desafios e problemas que se criam, enquanto se resolvem outros.

Para nós, estudante de Pedagogia do eLearning, o que mais se destaca no vídeo é a forma como é realçada a diferença entre os ambientes tradicionais de ensino e o público-alvo, maioritariamente nativos digitais, nascidos na era digital.

A maior procura de formação tem feito com que as instituições de ensino tenham recorrido ao aumento substancial do número de alunos por turma, à contratação de professores temporários, à utilização de professores assistentes e à sobrecarga de trabalho sobre os professores. Naturalmente que os custos destas alterações recai sobre a qualidade do ensino, recorrendo-se cada vez mais a aulas expositivas, pouca interação entre alunos e destes com os professores, diminuta participação, fraca execução de trabalhos de grupo colaborativos e uma avaliação maioritariamente sumativa, incidindo sobre produtos e resultados e não sobre processos e desenvolvimento de competências.

Por outro lado, a diversidade socioeconómica e cultural dos alunos é bem sublinhada, inclusivamente o facto de muitos não serem estudantes a tempo integral, tendo de trabalhar para custear os seus estudos, sendo contraproducente continuar a alimentar a uniformização de metodologias de ensino e de avaliação que resistem desde os tempos da industrialização, da produção em séria e das iniciativas de educação de massas.

Os alunos atuais são nativos digitais, estão constantemente ligados à internet, nas redes sociais, e pensam e aprendem de maneira diferente dada a sua imersão na Rede, o que coloca às instituições de ensino o desafio garantir o sucesso dos seus alunos, respondendo à diversidade do corpo discente com medidas que garantam a individualização e personalização da aprendizagem, flexibilidade da oferta e duma aprendizagem focada no aluno. Só desta forma conseguirão contribuir para que a maior parte dos seus alunos prossiga nos seus estudos mais bem qualificado e preparado para os desafios de uma sociedade baseada no conhecimento (Bates, 2017).

Desta feita, há que saber utilizar a tecnologia disponível para facilitar a vida das instituições de ensino, através de diferentes abordagens, de forma a ajudar os professores e garantindo uma maior eficácia para com um corpo discente cada vez mais diversificado e exigente. Alguns dos problemas podem ser minimizados com recurso a aprendizagem aberta, no sentido de disponibilização de recursos abertos (sendo uma forma de minimizar as questões económicas por parte dos alunos) mas também facilitar e melhorar o trabalho dos professores. Há ainda que destacar a importância de outras modalidades de aprendizagem e formação que a tornam acessível a um grande número de estudantes, como os Massive Open Online Courses (MOOCs) (Bates, 2017).

A adaptação necessária das instituições de ensino passa pelo recurso à aprendizagem híbrida e online, criando ambientes virtuais de aprendizagem e, pelo ensino aberto, diminuindo desta forma a diferença entre a oferta tradicional dos estabelecimentos de ensino e as expectativas dos nativos digitais.

 

A REDE como interface educativo (IV)

 

Análise do Vídeo Students helping students


Students Helping Students
Disponível em:
https://youtu.be/_npqbMKzHl8

O vídeo ilustra uma situação de união de alunos que procuram desta forma ajudar outros alunos da universidade. Refere-se ao Programa Proud, uma iniciativa de alunos da Kansas State University que decidiram constituir um fundo monetário para ajudar outros alunos quando estes mais precisam, por forma a que não abandonem a universidade. O foco é ajudar não somente com dinheiro, mas também com outras boas ações do dia a dia. O vídeo refere que já foram angariados mais de 250 mil dólares para apoio a estudantes daquela universidade no âmbito desta iniciativa de inclusão e solidariedade nascida na própria comunidade escolar, que tange mitigar as desigualdades e carência de alguns alunos, possibilitando-lhes continuar os seus estudos. É um bom exemplo de iniciativa e proatividade dos alunos e que retrata muito bem o impacto que a ação comunitária pode ter através da criação de comunidades e programas de apoio e o alcance (significativo e transformador) que estes podem ter, neste caso específico, promovendo a solidariedade a inclusão. Demonstra também que a problemática do abandono escolar não é uma preocupação apenas das instituições de ensino no geral, mas de todos os agentes educativos, nomeadamente, dos próprios alunos.

Este é um projeto já com mais de três anos de duração, que já arrecadou milhares de dólares, que foram utilizados para pagar lanches e livros de outros estudantes da universidade. Mais do que essas pequenas ações, o projeto já ajudou, inclusivamente, alunos que tiveram a casa destruída por um tornado. Isso mostra que, mesmo fora da sala de aula os alunos podem aprender muito, inclusivamente com outros alunos; é um exemplo de cidadania, de mobilização coletiva, de intervenção social. Mostra o quanto das aprendizagens acontece em contexto informal, não necessariamente conteúdos didáticos, mas valores sociais e sentido de ajuda ao próximo.

O vídeo apresenta um link para o site do projeto, onde podemos descobrir que o valor arrecadado atualmente já ultrapassa um milhão de dólares, dinheiro que tem sido aplicado na ajuda a alunos com problemas médicos inesperados, perda de trabalho ou de transporte para a universidade. Este é um exemplo de como a cooperação, a colaboração e a entreajuda podem permitir que, se todos ajudarem com um pouco, muito pode ser feito. O facto de a iniciativa estar documentada e partilhada em vídeo acessível através do Youtube pode contribuir para a sua ampla divulgação, inspirar outros a agir pelo exemplo ou servir de mote para incentivar alunos a criar iniciativas semelhantes em instituições educativas de todo o mundo.

A REDE como interface educativo (III)

 

Análise do Vídeo The Machine is (Changing) Us: YouTube and the Politics of Authenticity


The Machine ABC is (Changing) Us: YouTube and the Politics of Authenticity
Disponível em:
https://youtu.be/09gR6VPVrpw

Neste vídeo, Wesch começa por contrapor a visão do mundo de George Orwell, em 1984, segundo a qual uma entidade controladora tomaria conta de tudo, e a de Aldous Huxley, em Brave New World, que previa que iríamos divertir-nos até à morte. Apresenta depois o conceito de Media Ecology, segundo a qual os media, no seu todo, os media são ambientes completos, além de serem meios de comunicação e ferramentas segundo as quais transformamos e somos transformados. Moldamos as nossas ferramentas (tecnológicas) assim como elas nos moldam a nós, fazendo emergir novas formas de expressão, de comunidade e de identidade. Permitem-nos estabelecer relações interpessoais de formas que nunca tínhamos feito nem sequer imaginado, tornam possível inventar novas formas de nos conectarmos uns com os outros.

Wesch parte da análise da influência da TV sobre a sociedade, a cultura e o indivíduo e reflete sobre a forma como todo o mediascape, a paisagem mediática e os recursos visuais impactam a nossa perceção do mundo. Fala da geração MTV, que cresce sujeita à influência de quantidades massivas de informação, o que as torna menos permeáveis e mais indiferentes a uma série de estímulos, uma geração que se revela mais individualista e narcisista. Caracteriza a cultura transformada pelos media como uma cultura de irrelevância, incoerência e impotência, que produz sensações de isolamento e indiferença perante os acontecimentos e os outros e, consequentemente, uma identidade autocentrada que se reflete numa postura narcisista, o narcisismo cultural, onde as pessoas vivem autocentradas mas buscam por conexão e reconhecimento dos outros.

De seguida, apresenta algumas ilações retiradas do trabalho que tem vindo a desenvolver com os seus alunos de antropologia, focados no Youtube e na forma como os seus participantes encontra nessa rede uma forma de autorreflexão e desenvolvem um sentido de pertença e de identidade, terminando com uma visão otimista apontando uma expetativa de passagem da indiferença e do anonimato para a real conexão, e levanta a questão: de que forma podemos utilizar isto para combater o alheamento narcisista que vivemos hoje, numa cultura que aparentemente continua a reger-se por trivialidades?

Temos de aproveitar as potencialidades da rede e da disponibilidade das ferramentas emergentes para criar ambientes (de aprendizagem) inovadores; é imperativo que as instituições educativas e os seus agentes tentem evoluir e acompanhar esta evolução tecnológica, usando-a de uma forma positiva que possibilita o desenvolvimento e implementação de metodologias e práticas de ensino que contribuam para a motivação e mobilização dos alunos, garantindo aprendizagens efetivas.

A REDE como interface educativo (II)

 

Análise do Vídeo An anthropological introduction to YouTube


An anthropological introduction to YouTube
Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=TPAO-lZ4_hU introduction to YouTube - YouTube

Neste vídeo Michael Wesch começa por fazer uma retrospetiva acerca do surgimento da ABC e comparação entre os conteúdos de transmissão das 3 principais redes de televisão em 60 anos (supondo transmissão contínua) e a produção de conteúdos feita pelo Youtube em 6 meses, sem produtores só com contributos individuais dos utilizadores, destacando que cerca de 88% dos conteúdos do Youtube são novos e originais, tornando-o um fenómeno a ser estudado e dando o mote para o resto da apresentação em que analisa as novas formas de expressão, de comunidade e de identidade que estão a emergir a partir dele.

Até ao surgimento do Youtube em 2005 era bastante difícil fazer upload de vídeos para a web, através dele qualquer pessoa com uma webcam e acesso à internet pode ter uma voz e uma presença fortes online, o que está a resultar no surgimento de novas formas de comunidade e tipos de comunidades nunca vistas, conexões globais que transcendem o espaço e o tempo, inúmeras e ainda não imaginadas possibilidades. Permite-nos estabelecer relações interpessoais de formas que nunca tínhamos feito nem sequer imaginado e torna possível inventar novas formas de nos conectarmos uns com os outros.

De seguida apresenta a génese do vídeo The machine is using us e explicou como através o user generated filtering lhe permitiu chegar ao top dos rankings de várias plataformas, com um crescimento exponencial do úmero de visualizações. No entanto, Wesch explica que o que é interessante analisar nos media não é conteúdo nem são apenas ferramentas de comunicação. O que é interessante é que os media medeiam as relações humanas e isso é importante, porque quando os media mudam, as relações humanas mudam.

Referindo o sentimento geral de perda de comunidade (referido por  Robert Putnam) das pessoas que vivem nos subúrbios, desconectadas umas das outras e cuja única conexão eram as estradas e as TVs, Wesch estabelece um paralelismo com a atualidade, em que mudamos da conectividade place-to-place para a conexão person-to-person, um fenómeno que Barry Wellman define com networked individualism, uma inversão cultural em que nos estamos a tornar cada vez mais individualistas mas continuamos a alimentar este sentido e desejo de pertença a uma comunidade; quanto mais individualistas e independentes nos tornamos, mais ansiamos por relações interpessoais cada vez mais fortes.

De seguida, é apresentado o estudo (observação participante) que foi levado a cabo pela equipa do antropólogo para estudar os fenómenos sociais que ocorrem na internet, em particular no Youtube, através da criação e partilha de vLogs pelos seus utilizadores, de onde são retiradas ilações muito interessantes:

- Falar para uma webcam cria uma situação de audiência invisível e de assincronia e falta de contexto que podem contribuir para a criação de uma nova identidade num espaço onde é como se toda a gente está a assistir, mas na realidade não está lá ninguém. Por outro lado, há quem sinta que, apesar de ter a noção que haverá outras pessoas a observar, elas não estão presentes naquele exato momento em que elas estão a fazer o vídeo, o que de certa forma lhe permite serem mais autênticas.

- Quando pensamos em nós, habitualmente não pensamos no modo como nós aparecemos às outras pessoas, como os outros nos vêm. Os vLogs e a repetição permitem isso, e incentivam a autorreflexão.

- Vivemos numa tensão cultural, na medida que desejamos criar ligações, mas ao mesmo tempo enquanto indivíduos, vemos essa conexão como constrangedora. O que procuramos alcançar através das tecnologias é precisamente uma forma de conexão sem os constrangimentos. O YouTube possibilita que as pessoas se conectem de forma muito profunda, mas sem a responsabilidade que uma relação desse tipo costuma ter, garantida pela distância e pelo anonimato de quem assiste.

- Atualmente nunca se sabe onde as câmaras podem estar e quando é que determinado vídeo vai ser exposto no Youtube, provavelmente descontextualizado, o que é algo que pode afetar profundamente as nossas vidas.

O vídeo termina em tom otimista, com a apresentação da plataforma MadV, através da qual um apresentador anónimo desafia as pessoas a transmitir algo através de uma frase escrita na mão, obtendo-se exemplos de mensagens reveladoras e poderosas, que revelam autorreflexão e sentido de conexão, bem como a necessidade de exprimir valores que faltam nas suas vidas. Conclui com a ideia de que a comunidade virtual não se trata de uma comunidade amoral, pelo contrário, há vários valores fortes a surgir e a transparecer.

Refletindo sobre todas as questões que o vídeo suscita sob a perspetiva da pedagogia e dos contributos da rede para a educação, consideramos fundamental realçar a visão da internet como um potencial de conexões, de dados e de pessoas, como meio de comunicação capaz de ultrapassar as barreiras da distância de forma praticamente instantânea e como potenciadora de interações sociais, permitindo a participação e facilitando a partilha. Seja através do Youtube, de blogs, de wikis, o conhecimento e a informação passam a estar disponíveis para todos (os que têm acesso à rede), sem custos, o que significa que qualquer pessoa pode expandir os seus conhecimentos sobre qualquer assunto que lhe interesse, podendo inclusivamente tornar-se ela própria produtora de conteúdos. Torna-se aqui necessário questionar: O que deve a escola (seja ela tradicional ou não) ensinar? Quais são as competências que a escolaridade básica deve garantir de forma a promover a aprendizagem ao longo da vida? A nível superior, de que forma podem as instituições continuar a fornecer um serviço de qualidade que responda às exigências do futuro? Qual o papel do professor na educação em rede? E o do aluno?

A REDE como interface educativo (I)

 


Introdução

 

Após reflexão e discussão acerca da Sociedade em Rede e do fenómeno da Cibercultura, chegou a altura de analisar de que forma a Educação está a ser transformada pela Rede e o que ela comporta.

Os posts que se seguem resultam do trabalho realizado pela equipa Capa (Alexandra Bastos, Andreia Bento, Cláudia Asseiceiro, Luís Ferreira e Pedro Videira) no âmbito da Unidade Curricular Educação e Sociedade em Rede, e baseiam-se na análise crítica de 5 vídeos de Mike Wesch, disponíveis no Youtube, fundamentada na Bibliografia já analisada nesta Unidade Curricular complementada por:

·         Bates, A. W. (2017). Educar na Era Digital: Design, ensino e aprendizagem [versão digital].
Disponível em: 
Educar_na_Era_Digital.pdf (abed.org.br)

·         Teixeira, A., Bates, T., & Mota, J. (2019). What future(s) for distance education universities? Towards an open network-based approach. RIED. Revista Iberoamericana de Educación a Distancia, 22(1), pp. 107-126. http://dx.doi.org/10.5944/ried.22.1.22288

·         Grajek, S. (2021). "How Colleges and Universities Are Driving to Digital Transformation Today".
Disponível online em: 
https://er.educause.edu/articles/2020/1/how-colleges-and-universities-are-driving-to-digital-transformation-today

 

Contextualização

Michael Wesch é Professor de Antropologia Cultural na Kansas State University onde, com a sua equipa trabalha como ecologista de media no campo da etnografia digital. Foi apelidado de “o explicador” pela revista Wired e também foi o Professor do Ano dos EUA em 2008. Os seus trabalhos têm vindo a centrar-se no estudo dos efeitos dos novos media na interação humana e na forma com as pessoas se relacionam em sociedade.

Tony Bates, referência mundial em Educação a Distância e Tecnologia Educacional, destaca que as grandes mudanças económicas e tecnológicas que têm vindo a impor alterações profundas na sociedade, têm impacto na educação e exigem que se pensem novas abordagens para o ensino superior. Há que repensar o papel dos professores, dos alunos, dos objetivos do próprio ensino, dos recursos usados, dos métodos ensino, da avaliação e certificação da qualidade, do lugar dos MOOCs (Massive Open Online Courses) enquanto modalidade de acesso à educação, do uso de Recursos Educativos Abertos, em suma, de todo um conjunto de conceções e práticas sobre o que é ensinar e o que é aprender.

Fundamentando-nos em Bates (2017) optamos por focar-nos nas seguintes duas questões que se interligam com a temática em estudo:

·         Que estratégias funcionam melhor para o ensino num ambiente rico em tecnologia?

·         Como manter a qualidade do ensino, da aprendizagem e dos recursos num ambiente de aprendizagem que muda rapidamente [em virtude da evolução tecnológica]?

Teixeira, Bates e Mota (2019) referem que a evolução da tecnologia e as mudanças que ela comporta conduzem a mudanças de paradigmas em educação. A necessidade de aumentar a escalabilidade, a interoperabilidade e a flexibilidade de oferta educacional impulsionam o ensino digital e aberto na educação superior. A educação aberta a distância permite chegar a mais regiões, reduzir as dificuldades no acesso à educação e sobretudo dar resposta a desafios complexos, tais como crises sociais ou económicas, fenómenos críticos ou situações de resposta urgente (como por exemplo a pandemia de Covid-19).

O modelo organizacional inovador proposto no artigo What future(s) for distance education universities? Towards an open networkbased approach inspirou-nos a refletir sobre a forma como a revolução tecnológica está a modificar a nossa conceção de educação e isso se reflete em mudanças de práticas educativas e organizacionais dentro das instituições.

Grajek (2021) reflete sobre a forma como as instituições educativas estão a operacionalizar a sua transformação digital que, de acordo com a Educause, se define como “força de trabalho coordenada, cultura e mudanças tecnológicas, que permitem novos modelos educacionais e operacionais e transformam as operações, direções estratégicas e proposta de valor de uma instituição”.

Decorrente desta definição, levantam-se as questões:

-          Quais as mudanças na força de trabalho, cultura e tecnologia que se estão a operar nas instituições?

-          Como as mudanças [no ensino superior] se relacionam com os 10 problemas de TI, dos quais, no contexto deste trabalho, optamos por focar a questão do Ensino Superior centrado no aluno.

Conscientes de que as tecnologias promovem mudanças rápidas e que a sociedade em rede está a transformar a educação, procuraremos estabelecer a ponte entre os vídeos de Wesch e a fundamentação teórica dos recursos bibliográficos a que acedemos, para compreender de que forma a Rede pode contribuir para recuperar “a antiga dimensão comunitária da aprendizagem, integrando-a de modo dinâmico com a noção tipicamente moderna de autoformação.”