Segundo Pierre Lévy, a cibercultura engloba todo um conjunto de novas práticas, hábitos, formas de comunicar e até mesmo de vocabulário, que surgem com a adoção de novas formas de nos relacionarmos com o mundo e uns com os outros, em virtude da integração das novas tecnologias e do crescimento do ciberespaço graças a um "movimento internacional de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem".
O ciberespaço (rede) é definido como um novo
meio de comunicação, englobando a infraestrutura material da comunicação
digital (computadores conectados através da internet), as informações que nele
circulam e as pessoas que nele participam, enquanto a cibercultura abrange o
"conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de
atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com
o crescimento do ciberespaço".
Para além das
definições, Lévy defende que a cibercultura tem como horizonte uma
universalidade completamente distinta de todas as outras formas e manifestações
culturais. Ao contrário das culturas baseadas na oralidade (onde a produção,
transmissão e receção de mensagens é feita num mesmo contexto) que vivem
"uma totalidade sem universal" ou das sociedades baseadas na escrita
(que se enclausura sobre si mesma, numa tentativa de fixação de sentidos) que
fizeram surgir um "universal totalizante", a cibercultura devolve as
mensagens ao seu contexto, como nas culturas baseadas na oralidade, procurando
uma universalidade sem totalidade que se constrói e reconstrói na interação e negociação
de significados construídos em rede (ciberespaço), sem imposição de sentidos
únicos.
Na perspetiva do autor,
a cibercultura rege-se por três princípios:
- O
princípio da interconexão, na medida em que obedece à lógica da
interatividade da comunicação, da presença em rede, da interligação dos
contactos a partir de outros contactos. Um exemplo bem representativo
deste princípio são as redes sociais, como o Instagram ou o Facebook, que
permitem colocar em contacto "amigos" de "amigos",
multiplicando as conexões, e em que se fazem publicações visando obter
"likes" ou comentários (de validação), favorecendo a comunicação
entre os utilizadores.
- O
princípio da formação de comunidades, relacionado com a tendência para as
pessoas se agruparem em "tribos" formando grupos que partilham
dos mesmos interesses, refere-se à criação de comunidades virtuais que
congregam utilizadores com base nas suas afinidades e visam a partilha e a
cooperação. São exemplo destas comunidades virtuais os grupos de Facebook
e de WhatsApp, por exemplo.
- O
princípio da inteligência coletiva, fim último da cibercultura e da sua perspetiva
cultural. Baseia-se no pressuposto de que aprendemos e nos enriquecemos em
rede, que onde quer que estejamos levamos a nossa bagagem de conhecimento,
que ampliamos ao aceder a conteúdos variados disponíveis no ciberespaço e
que de outra forma poderiam ser inalcançáveis. Temos como exemplos a
disponibilidade no ciberespaço de recursos educativos abertos, dos vídeos
temáticos em canais do YouTube, dos MOOC disponibilizados por várias
entidades formadoras e instituições do ensino superior, e uma imensa
variedade de conteúdos que antes estavam apenas ao alcance através de
aulas, livros, museus, etc.
Com a abertura deste
novo espaço de comunicação, o ciberespaço, prolifera a livre circulação de
informações, muitas vezes contraditórias, e cuja veracidade nem sempre é fácil
de comprovar, em quantidade e a uma velocidade que podem ser assoladoras.
Recorde-se que Lévy, ao definir ciberespaço salienta que este designa "não
só a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo
oceânico das informações que nele navegam e o alimentam”. A metáfora do
universo oceânico, que aponta já para uma imensidão de informação sobre a qual
é necessário navegar é retomada quando alude ao excesso de informação como
dilúvio informativo. Apesar das alusões bíblicas continuarem ao longo da obra,
não creio que a intenção do autor seja transmitir uma ideia negativa, muito menos
catastrofista das implicações da cibercultura. Pelo contrário, são várias as
alusões à responsabilidade, quer individual quer coletiva, de fazer uma
utilização adequada das tecnologias à nossa disposição, nomeadamente quando
refere que "Os instrumentos que construímos dão-nos poder, mas,
coletivamente responsáveis, a escolha está em nossas mãos" ou que
"Técnicas criam novas condições, mas não determinam nem as trevas nem a
iluminação para o ser humano".
De facto, a facilidade
com que acedemos, manipulamos e transmitimos informações no ciberespaço devia
obrigar-nos a pensar e reorganizar o modo como comunicamos e produzimos
mensagens. São os fluxos descontrolados de informação e de comunicação que
constituem o lado menos profícuo deste dilúvio informativo e que têm
implicações na vida em rede.
É necessário reconhecer
as implicações culturais do desenvolvimento das tecnologias digitais de
informação e de comunicação e compreender as transformações que esse
desenvolvimento implica na nossa relação com o saber, assim como nos campos da
educação e da formação. Só munidos dessa consciência e dos conhecimentos
pedagógicos (e técnicos) poderemos contribuir para uma utilização dessas
tecnologias enquanto ferramentas de democratização do acesso à informação e de
uma educação de qualidade para todos.
Se tivermos em mente a
visão positiva e otimista de Lévy quando refere que "o horizonte de um
ciberespaço que temos como universalista é o de interconectar todos os bípedes
falantes e fazê-los participar da inteligência coletiva da espécie no seio de
um meio ubiquitário", teremos uma declaração de "boas intenções"
no que respeita ao ciberespaço. Depende de nós contribuir para o
desenvolvimento de uma cibercultura em que se revelem as suas potencialidades
mais positivas, desenvolvendo e utilizando as tecnologias numa perspetiva que
tenha tanto de comunitária como de humanista.
Bibliografia:
Lévy, P. (1999) Cibercultura. São Paulo:
Editora 34.
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