sábado, 19 de novembro de 2022

A cibercultura, segundo Pierre Lévy

 

Segundo Pierre Lévy, a cibercultura engloba todo um conjunto de novas práticas, hábitos, formas de comunicar e até mesmo de vocabulário, que surgem com a adoção de novas formas de nos relacionarmos com o mundo e uns com os outros, em virtude da integração das novas tecnologias e do crescimento do ciberespaço graças a um "movimento internacional de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem". 

O ciberespaço (rede) é definido como um novo meio de comunicação, englobando a infraestrutura material da comunicação digital (computadores conectados através da internet), as informações que nele circulam e as pessoas que nele participam, enquanto a cibercultura abrange o "conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço".


 

Para além das definições, Lévy defende que a cibercultura tem como horizonte uma universalidade completamente distinta de todas as outras formas e manifestações culturais. Ao contrário das culturas baseadas na oralidade (onde a produção, transmissão e receção de mensagens é feita num mesmo contexto) que vivem "uma totalidade sem universal" ou das sociedades baseadas na escrita (que se enclausura sobre si mesma, numa tentativa de fixação de sentidos) que fizeram surgir um "universal totalizante", a cibercultura devolve as mensagens ao seu contexto, como nas culturas baseadas na oralidade, procurando uma universalidade sem totalidade que se constrói e reconstrói na interação e negociação de significados construídos em rede (ciberespaço), sem imposição de sentidos únicos.

 

Na perspetiva do autor, a cibercultura rege-se por três princípios:

 

  • O princípio da interconexão, na medida em que obedece à lógica da interatividade da comunicação, da presença em rede, da interligação dos contactos a partir de outros contactos. Um exemplo bem representativo deste princípio são as redes sociais, como o Instagram ou o Facebook, que permitem colocar em contacto "amigos" de "amigos", multiplicando as conexões, e em que se fazem publicações visando obter "likes" ou comentários (de validação), favorecendo a comunicação entre os utilizadores.

 

  • O princípio da formação de comunidades, relacionado com a tendência para as pessoas se agruparem em "tribos" formando grupos que partilham dos mesmos interesses, refere-se à criação de comunidades virtuais que congregam utilizadores com base nas suas afinidades e visam a partilha e a cooperação. São exemplo destas comunidades virtuais os grupos de Facebook e de WhatsApp, por exemplo.

 

  • O princípio da inteligência coletiva, fim último da cibercultura e da sua perspetiva cultural. Baseia-se no pressuposto de que aprendemos e nos enriquecemos em rede, que onde quer que estejamos levamos a nossa bagagem de conhecimento, que ampliamos ao aceder a conteúdos variados disponíveis no ciberespaço e que de outra forma poderiam ser inalcançáveis. Temos como exemplos a disponibilidade no ciberespaço de recursos educativos abertos, dos vídeos temáticos em canais do YouTube, dos MOOC disponibilizados por várias entidades formadoras e instituições do ensino superior, e uma imensa variedade de conteúdos que antes estavam apenas ao alcance através de aulas, livros, museus, etc.

 

Com a abertura deste novo espaço de comunicação, o ciberespaço, prolifera a livre circulação de informações, muitas vezes contraditórias, e cuja veracidade nem sempre é fácil de comprovar, em quantidade e a uma velocidade que podem ser assoladoras. Recorde-se que Lévy, ao definir ciberespaço salienta que este designa "não só a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico das informações que nele navegam e o alimentam”. A metáfora do universo oceânico, que aponta já para uma imensidão de informação sobre a qual é necessário navegar é retomada quando alude ao excesso de informação como dilúvio informativo. Apesar das alusões bíblicas continuarem ao longo da obra, não creio que a intenção do autor seja transmitir uma ideia negativa, muito menos catastrofista das implicações da cibercultura. Pelo contrário, são várias as alusões à responsabilidade, quer individual quer coletiva, de fazer uma utilização adequada das tecnologias à nossa disposição, nomeadamente quando refere que "Os instrumentos que construímos dão-nos poder, mas, coletivamente responsáveis, a escolha está em nossas mãos" ou que "Técnicas criam novas condições, mas não determinam nem as trevas nem a iluminação para o ser humano".

 

De facto, a facilidade com que acedemos, manipulamos e transmitimos informações no ciberespaço devia obrigar-nos a pensar e reorganizar o modo como comunicamos e produzimos mensagens. São os fluxos descontrolados de informação e de comunicação que constituem o lado menos profícuo deste dilúvio informativo e que têm implicações na vida em rede.

 

É necessário reconhecer as implicações culturais do desenvolvimento das tecnologias digitais de informação e de comunicação e compreender as transformações que esse desenvolvimento implica na nossa relação com o saber, assim como nos campos da educação e da formação. Só munidos dessa consciência e dos conhecimentos pedagógicos (e técnicos) poderemos contribuir para uma utilização dessas tecnologias enquanto ferramentas de democratização do acesso à informação e de uma educação de qualidade para todos.

 

Se tivermos em mente a visão positiva e otimista de Lévy quando refere que "o horizonte de um ciberespaço que temos como universalista é o de interconectar todos os bípedes falantes e fazê-los participar da inteligência coletiva da espécie no seio de um meio ubiquitário", teremos uma declaração de "boas intenções" no que respeita ao ciberespaço. Depende de nós contribuir para o desenvolvimento de uma cibercultura em que se revelem as suas potencialidades mais positivas, desenvolvendo e utilizando as tecnologias numa perspetiva que tenha tanto de comunitária como de humanista.

 

Bibliografia:

Lévy, P. (1999) Cibercultura. São Paulo: Editora 34.




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